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19/07/2018 - 08:29

Certificados os primeiros vinhos brasileiros em boas práticas na produção

Selo de Produção Integrada atesta itens como redução de químicos na lavoura e respeito às leis trabalhistas.

A Vinícola Ravanello no município de Gramado (RS) é a primeira empresa brasileira a apresentar o selo da produção integrada em seus rótulos, certificação que atesta o emprego de boas práticas agrícolas e de produção. A chancela assegura que o produto cumpriu uma série de quesitos que vão desde a redução do uso de químicos na lavoura até a preocupação com a saúde do trabalhador e a sua capacitação entre vários outros itens que também dão segurança ao consumidor.

Após acompanhamento técnico e auditorias, os vinhos Chardonnay e um assemblage de Merlot e Cabernet Sauvignon, elaborados na Safra 2017/18, receberão o certificado e a autorização da impressão de selos da produção integrada para as garrafas do Instituto de Avaliação da Qualidade de Produtos da Cadeia Agro Alimentar (Certifica). O Programa da Produção Integrada tem a chancela do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).

A conquista do vinho certificado é o resultado de nove anos de pesquisas científicas, período no qual foi avaliado e validado todo o sistema de manejo da uva e o processo de elaboração da bebida. Segundo o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho (RS) Samar Velho da Silveira, que lidera o projeto de produção integrada, à medida que as normas propostas pela equipe técnica iam sendo avaliadas e validadas, as vinícolas parceiras já incorporavam as práticas em suas rotinas. “A parceria com produtores nesse processo foi fundamental para conseguirmos ter um sistema que funciona na prática. É um novo momento para os vinhos brasileiros”, comemora o cientista.

Selo é diferencial no mercado — Silveira explica que a produção integrada é um sistema de certificação que tem a sua base na adoção de boas práticas, tanto agrícolas quanto de fabricação, no qual através do uso do manejo integrado de pragas e doenças se busca a redução de uso de agroquímicos, visando à ausência de resíduos químicos, físicos e biológicos nos produtos ou, se existirem, que estejam dentro de padrões de segurança estabelecidos na legislação brasileira, oferecendo assim alimentos seguros e de alta qualidade aos consumidores. “A Produção Integrada é a consolidação do melhor conhecimento agronômico disponível, que permite uma produção ambientalmente sustentável. Ao cumprir a normativa, os agricultores poderão certificar seus vinhos e usar o selo Brasil Certificado, diferenciando o produto no mercado”, declara.

O sistema também leva em conta o aspecto social da produção, como a saúde do trabalhador rural, isenção do uso de mão de obra infantil e o constante treinamento das pessoas. “O resultado final é uma garrafa de vinho com um selo que garante acesso a mercados exigentes e que possibilita a rastreabilidade de todo o sistema”, pontua Silveira. Todo o histórico da produção na propriedade fica registrado nos “Cadernos de Campo” e nos “Cadernos do estabelecimento Vinícola”, que é um dos materiais auditados pela certificadora. A vinícola pode adicionar um código de barras ou um código QR ao rótulo para que essas informações possam ser visualizadas pelo consumidor por meio de seu aparelho celular ou tablet.

A certificação — Para um vinho receber o selo da produção integrada, um longo caminho deve ser percorrido. O produtor deve contar com assistência técnica capacitada e habilitada em Produção Integrada de Uva para Processamento (PIUP) para conduzir as práticas de manejo no parreiral, atendendo aos princípios e às Normas Técnicas. Dentre elas, conduzir sua área dentro das normas durante um ano prévio à certificação e ser auditado por uma certificadora independente, nesse caso, o Instituto de Avaliação da Qualidade de Produtos da Cadeia Agro Alimentar (Certifica).

Nede Lande Vaz da Silva, diretor do instituto, comenta que todo o processo de certificação é acompanhado a partir de uma lista de checagem detalhada, que envolve desde a produção da uva ao longo da safra no campo, começando já na época da poda, passando pela colheita, vinificação e dos testes em laboratórios terceirizados para identificar a possível existência de resíduos no vinho. “É um processo bastante demorado e minucioso, percorremos todo o caminho da produção que se encerra com a análise dos vinhos, da qual somos responsáveis pela coleta da amostra, que são lacradas e enviadas ao laboratório”, explica.

O laudo técnico do laboratório vai para a certificadora e lá são conferidas se todas as moléculas que integram a grade de agroquímicos da cultura estão dentro dos limites estabelecidos pelo Mapa e pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Se tudo estiver de acordo, a empresa emite o certificado e autoriza a emissão do selo, que contém a marca do Programa Brasil Certificado, do Mapa e da certificadora. A emissão dos selos é controlada pela certificadora que autoriza a gráfica a imprimir somente a quantidade de selos necessária para as garrafas que receberão o vinho elaborado dentro do sistema de produção integrada.

A Ravanello passou pela fase da auditoria do campo em outubro de 2017 e da vinícola em janeiro de 2018. No mês de abril deste ano, finalizando o processo, os vinhos foram coletados e as análises de resíduos foram realizadas em laboratório. “Todo o processo segue à risca um grande check list, que garante um produto final de qualidade. Atualmente, o consumidor brasileiro ainda não reconhece a certificação de produção integrada como um diferencial, mas é uma questão de conscientização e de tempo”, avalia Silva. Ele comenta que, além da uva para elaboração de sucos e vinhos, a empresa também tem sido responsável pela certificação da Produção Integrada de maçãs e morango.

Para o proprietário da Vinícola, Normélio Ravanello, a conquista da Produção Integrada foi planejada a longo prazo, e nasceu da preocupação desde a concepção do empreendimento em produzir de forma sustentável. O produtor conta que empregou um profissional de Biologia, a fim de repassar as diretrizes para a não contaminação e preservação do meio ambiente.

Ravanello considera a certificação uma comemoração antecipada aos dez anos da vinícola, que acontecerá no mês de novembro. “A certificação simboliza a prova concreta que buscamos passar para nossos clientes que nos visitam, aonde divulgamos a cultura do vinho, o respeito ao meio ambiente e à saúde das pessoas”, sintetiza.

Ele comenta que desde a escolha das uvas melhor adaptadas ao clima de Gramado, a aquisição dos equipamentos de última geração e a assessoria de profissionais competentes foram fundamentais para o empreendimento, “Sempre quis ter o melhor dentro da uva e do vinho. E é a razão do meu projeto”, revela o neto de imigrantes italianos, que tem a vinícola como seu projeto de aposentadoria e retorno às origens, pois na adolescência auxiliava o pai na elaboração de vinho. Essa busca pela excelência Ravanello atribui a sua experiência como executivo, pois durante sete anos, foi presidente para a América Latina da empresa de equipamentos agrícolas Massey Fergunson.

A busca pela qualidade levou a Vinícola Ravanello a ser uma das primeiras vinícolas a apoiar e auxiliar a Embrapa na validação das Normas da Produção Integrada de Uva para Processamento (PIUP) e agora tornou-se a pioneira a ter seus vinhos certificados. A relação com a empresa de pesquisa, segundo relata o empresário, é mais antiga, pois antes mesmo de formalizar a vinícola ele já contava com o seu apoio.

“Nossos primeiros vinhos foram elaborados na Embrapa, por meio de um contrato de cooperação. Com ajuda dos especialistas, identifiquei a melhor localização para as parreiras, entre a Serra do Mar e do Continente, e o que havia de mais moderno no mundo em equipamentos e práticas de produção e trouxe para cá”, conta Ravanello.

Ele cita, por exemplo, a prensa pneumática horizontal com o sistema Inertz, o primeiro equipamento do gênero que veio da Itália para o Brasil e no qual foi elaborado o Chardonnay certificado. O planejamento da Vinícola foi feito a várias mãos, com o apoio de profissionais, dentre as quais uma bióloga e uma arquiteto que se preocuparam com diferentes aspectos, como o tratamento de esgoto, por exemplo. Eles desenvolveram um projeto amplo que previu, inclusive, o tratamento do esgoto produzido,que conta com o aval da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), deixando a propriedade autossuficiente e sem depender do poder público para tratar seus resíduos.

Erradicação de herbicidas — A implantação da produção integrada na Vinícola conta com o acompanhamento do enólogo Ataíde Israel Cordeiro e do técnico agrícola Rudilei Carmiel, responsáveis técnicos treinados pela Embrapa que fazem o acompanhamento das áreas de produção integrada. Um dos principais resultados da implantação do sistema foi a redução de 30% nos produtos aplicados no parreiral, somente utilizando estratégias de monitoramento dos insetos e a erradicação do uso de herbicidas.

Por meio do Plano Agro+, em novembro de 2016, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) publicou a instrução normativa contemplando as Normas Técnicas Específicas (NTE) para 13 culturas agrícolas, dentre elas a uva para processamento. Com essa publicação, criada com base na documentação elaborada pela Embrapa Uva e Vinho, os agricultores poderão aderir, de modo voluntário, às respectivas Normas Técnicas, passando a cultivar de acordo com a Produção Integrada Agropecuária (PI Brasil), voltada à sustentabilidade, preservação do meio ambiente e da saúde do agricultor e dos consumidores.

O conceito de Produção Integrada foi criado na Europa na década de 1970. Naquela época, manifestaram-se nos círculos científicos preocupações quanto ao alcance restrito do manejo integrado de pragas, como estratégia utilizada para racionalização e redução de uso de agroquímicos e de sustentabilidade da atividade frutícola. Em 1989, estabeleceu-se um regulamento que foi aceito e reconhecido pela Organização Internacional de Luta Biológica de pragas (IOBC). No Brasil, foi criado um modelo de pesquisa e desenvolvimento pela Embrapa Uva e Vinho, inicialmente validado para a cultura da maçã, que foi o primeiro produto brasileiro a receber a certificação de Produção Integrada.

A Produção Integrada de Uva para Processamento foi desenvolvida pela Embrapa em parceria com instituições de pesquisa, de extensão e do setor produtivo, como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Governo do Rio Grande do Sul (Emater/Ascar-RS), Tecnovin do Brasil, Cooperativa Nova Aliança, e as vinícolas Almadén, Luiz Argenta, Ravanello, Perini e Santa Maria.

No Brasil, a viticultura ocupa uma área aproximada de 82,5 mil hectares, produzindo anualmente em torno de 1,34 milhão de toneladas de uvas. A cultura da videira tem importante relevância socioeconômica para o país, sendo o Rio Grande do Sul o maior polo vitivinícola do Brasil, responsável por cerca de 90% da produção nacional de vinhos e sucos.

Entre 2010 e 2015, foram elaboradas e harmonizadas as normas PIUP, os Manuais Técnicos e os Documentos de Acompanhamento (Caderno de Campo, Caderno do Estabelecimento Vinícola e a Grade de Agroquímicos), os quais dão suporte à adoção do sistema de produção integrada. As normas PIUP foram então repassadas ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento para publicação em Diário Oficial, de maneira que os produtores e as vinícolas interessadas possam adotar o sistema de forma oficial.

Segundo Silveira, a expectativa é que outras vinícolas tenham sua produção certificada e que os viticultores de outras regiões sigam a experiência e mostrem o caminho para outras empresas.

Características básicas da PI: - Ao consultar as normas específicas por cultura para a Produção Integrada, define-se quais as práticas obrigatórias, recomendadas e proibidas de serem adotas em cada cultura.

- Organiza a grade de agroquímicos da cultura, documento que reúne os agroquímicos registrados e permitidos para cada cultura no Mapa. Nesse documento, constam ainda o período de carência, o intervalo entre aplicações, a dose recomendada pelos fabricantes recomendados e as possíveis doenças, pragas e plantas daninhas a serem controladas por cada agroquímico.

- No Brasil, a prerrogativa de instituir a normativa legal e coordenar as ações da Produção Integrada é do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ao INMETRO cabe estipular os parâmetros de auditoria e acreditar as empresas certificadoras. Essas, atuam diretamente na propriedade ou empresa, no caso na vinícola, fiscalizando o cumprimento das Normas.

- O produtor e/ou o técnico responsável da propriedade que voluntariamente aderir ao sistema deve assinar um contrato com uma empresa certificadora, providenciar a realização de treinamentos periódicos aos funcionários, preencher rotineiramente registros de toda as atividades desenvolvidas na área de produção, aceitar a realização de auditorias por parte da Certificadora e fornecer amostras para realização de análises de resíduos de agroquímicos, sempre que requerido.

- Todo o processo de produção é analisado e eventuais não conformidades em relação às Normas, identificadas no início do processo de auditoria, são notificadas ao produtor ou à empresa, que têm um tempo determinado para efetuar as devidas correções. Eventuais não conformidades detectadas no fim do processo de produção, sem tempo hábil para correção, portanto, significam a não obtenção do selo. Os produtores com cumprimento total das Normas, documentado pelos cadernos de campo, visitas da auditoria e com resultados de análises satisfatórias, receberão a autorização para comercializar os produtos controlados nessa safra com o selo de Produção Integrada. | Viviane Zanella/RS

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